11 fevereiro, 2008

Amendoeiras

Amendoeiras



Em Fevereiro, quando lá de cima
Deus, com a tinta de luar, escreve
Seus lindos versos algarvios, rima
A flor das amendoeiras com a neve…

Neve em flor! Sonho! Alvura! Quem descreve
O noivado irreal que se aproxima,
Pão branco, tão diáfano, tão leve,
Que nem talvez na música se exprima?

- Meninas da primeira comunhão,
Ascéticas, descendo da montanha
À beira do caminho em procissão,

Em vias-lácteas de perfume brando,
Oiço-vos bem a sinfonia estranha,
- Porque, amendoeiras, vós estais cantando…




Cândido Guerreiro


Portugália Editora, Lisboa, 1943





Francisco Xavier Cândido Guerreiro, um dos mais notáveis poetas algarvios e um dos vultos do séc. XX nesta região, nasceu em Alte em 3 de Dezembro de 1871.
Filho de uma família de poucos recursos mas culta, que lhe proporciona estudos, chega a frequentar o liceu de Faro e o seminário que abandona após a morte do pai, por falta de vocação.
Viveu em Alte, Loulé e Beja enquanto trabalhava para apoiar a mãe, tendo sido escrivão do Juiz da Paz em Estói e Presidente do Posto Meteorológico de Faro, foi também Perfeito da Casa Pia de Beja e Fiscal de Impostos de Faro. Em 1910 é nomeado notário da comarca de Loulé e entre 1912 e 1918, preside à comissão administrativa da Comarca de Loulé. Durante a sua administração o concelho alcançou grande desenvolvimento e progresso, patente, por exemplo, na chegada da luz eléctrica.
Foi amigo do também poeta João Lúcio, que o terá aconselhado a cursar direito em Coimbra, sendo o primeiro altense a faze-lo, provocando orgulho nos seus conterrâneos.
Enquanto poeta, Cândido Guerreiro insere-se numa corrente Pós-Simbolista integrada no grupo da Renascença Portuguesa. O poeta vai buscar influências, a um certo Simbolismo visível na linguagem e nos conceitos, mas também a um parnasianismo esteticista singularizado pelo “pitoresco algarvio”. Esta marca de afecto pela terra, Alte/Loulé e todo o Algarve, é uma das suas principais temáticas, e a forma como a expõe torna-o visivelmente herdeiro de um movimento cuja influência do Orientalismo e Romantismo contribuiu para a reabilitação da imagem de um Algarve arábico. No que respeita à recuperação de tradições de índole popular que identificam e valorizam o meio, é frequentemente reflectida a grande admiração, ou mesmo orgulho do poeta relativamente ao passado mouro do território algarvio.
Devido à sua estrutura rigorosa que lhe confere musicalidade, o soneto é a forma de expressão literária de eleição de Cândido Guerreiro, que além da poesia também produziu teatro, como o “Auto das Rosas de Santa Maria”. As suas principais obras poéticas são, “Balada”, em 1907, “Adeus”, em 1942, “Tuas Mãos Misericordiosas (As)”, 1944, entre outras.
Com estas obras, e talvez também devido aos cargos que desempenhou, a sua figura de poeta e filósofo é afirmada a nível nacional.
Com várias antologias nacionais e estrangeiras, a sua obra está traduzida em línguas como o italiano, o francês e o alemão.