05 outubro, 2007

Aqarru - Uma resistência da Memória




Uma das coisas mais deliciosas que ouvi nos últimos dias diz respeito ao figo, fruto tradicionalmente associado ao sul da Europa e norte de Africa. Aqarru é o nome que se dá ao figo em tamazight, língua do povo berbere originário das montanhas do Atlas no norte de Marrocos, e também expressão usada pelos povos rurais da margem esquerda do Guadiana relativamente ao comportamento das ovelhas quando acabam de pastar e se juntam todas à sombra de uma árvore. Então as ovelhas estão no aqarru ou aqarradas.
Ora, se os povos islâmicos que colonizaram o território hoje português seriam na sua maioria berberes do norte de África, pode pensar-se que à margem das respectivas evoluções linguísticas, permaneceu como referente na expressão utilizada naquelas aldeias alentejanas, a ideia de sombra herdada das populações que anteriormente habitaram os mesmos locais, visto que de acordo com as espécies arbóreas existentes, a sombra da figueira seria certamente a mais fresca.
É também este tipo de património imaterial que constitui uma das mais valiosas riquezas da nossa cultura (s) e que merece ser preservado e divulgado, por exemplo pela realização de recolhas orais como base de investigações antropológicas junto de determinadas comunidades locais que devem ser entendidas como fontes inesgotáveis de saber.

3 comentários:

António Baeta disse...

Curioso dizeres que ouviste falar recentemente em aqarru e no significado da mesma palavra na margem esquerda do Guadiana. Curioso porque isso também aconteceu comigo, o que pode querer significar que estivemos juntos no mesmo curso de arqueologia e urbanismo medieval e o ouvimos da boca de Santiago Macias. Será assim?

susecris disse...

Sim, estive lá! Por acaso até pensei que fosse o António que lá estava, mas não tinha a certeza e não se proporcionou a conversa. Fica para a próxima oportunidade!
Um abraço!

alfacinha-belga disse...

Caro amigo,

Sempre estou encantado encontrar neste blog, os rares espólios do tempo islâmico, interessantes pormenores que anda como um fio vermelho pelo seu lindíssimo blog.
Cumprimentos de Antuérpia